CORPO TODO
na viagem que um ramo faz
a outro ramo
o corpo todo da árvore
é um poema
saber olhar a poesia
em folhas
para onde olhas no verde
é sentir o coração solto
a bater no espaço
nu o infinito dum momento
Este poema envolve, necessita de toda uma poética que encarna, torna-se carne no seu nome “CORPO TODO”. É um poema cujo título seria bom para nomear toda uma obra mais vasta, um conjunto. Também está bem para o poema, um conjunto de versos, cada verso uma folha da copa, um galho da armação, uma raiz das raízes, o florir dum botão abrindo em todas as flores que chegam a fruto, passando a fase exuberante de abrir seu pólen ao vento, chuva, insectos, aos pássaros, ao espaço!
Vemos os ramos a mover ao vento, num aceno que dança, o movimento na imobilidade aparente do tronco que cresce afundando as raízes da árvore no seu chão. Dessa imobilidade aparente do tronco o poeta passa aos ramos, tentando esgalhar o poema tendo como ponto de partida a viagem no olhar, olhando «o corpo todo da árvore».
O poema não se esgota nas palavras, nasce delas nascendo das coisas e pelas coisas. Gosto da ideia de «saber olhar a poesia», para poder fazer/chegar o poema. Uma ideia que, antes de ser ideia, é o gosto de que gosto. Pode até ser… algo irracional, algo que não se discute. Não se discute, é algo que se curte:
é sentir o coração solto
a bater no espaço
Todo o poema, podendo guarda como desejo a redenção, tenta viver no último verso uma primeira e última palavra, uma derradeira ou nova ideia, um episódio único na sua história, o essencial da essência, o perfume dum verso final onde ainda SE guarda o que se liberta:
nu o infinito dum momento
O que é que te pediste, o que te pediu o poema, o que te poderá pedir? Os poemas são bons ou maus, como todas as obras, devem ser sempre julgados pelo que dão:
saber olhar a poesia
em folhas
para onde olhas no verde
A poética é a ética da Poesia, a Estética do poema, uma Metafísica do poeta. Cá deixo a prosa, uma leitura, dos versos.