terça-feira, 4 de dezembro de 2012

DESENHO DE CORAÇÃO

26. DESENHO DE CORAÇÃO 
Eu e meu ego sentámo-nos numa esplanada, apanhando os raios dum acolhedor sol de outono. O ego em silêncio, eu com sono. Comecei a escrever, com o lápis das sobrancelhas que nunca uso. Minha escrita: desenho de coração – enamorado. Delicado, pegou no fino guardanapo de papel com o desenho, engoliu-o – com um gole de café.

Eu e meu ego sentámo-nos numa esplanada, apanhando os raios dum acolhedor sol de outono. O ego em silêncio, eu com sono. Comecei a escrever, com o lápis das sobrancelhas que nunca uso. Minha escrita: desenho de coração – enamorado. Delicado, pegou no fino guardanapo de papel com o desenho, engoliu-o – com um gole de café.
40)

LuliCoutinho
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domingo, 2 de dezembro de 2012

EXPLICAÇÃO DE TUDO

25. EXPLICAÇÃO DE TUDO
A Maria Mãe de Deus

O Mistério atraia o Criador, criou o Mundo. Criou o Homem, fecundou Maria. Imaginou-se a maior das criações de qualquer criança ou adulto, quis ser: explicação de tudo.
39)

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sexta-feira, 30 de novembro de 2012

POMBA

24. POMBA

Para ser cristã, basta acreditar em Cristo. Acredito que ele seja meu filho, tomo o papel de Espírito Santo. Sou uma pomba, brincando com as ideias dos homens, poisando nas costas duma cadeira, num poema de Alberto Caeiro que era Fernando Pessoa não-ele-mesmo. Também eu faço poemas se, em vez de dizer as coisas por extenso, me fizer – ficar em verso.

POMBA

Para ser cristã,
basta acreditar em Cristo.
Acredito que ele seja meu filho,
tomo o papel de
Espírito Santo.
Sou uma pomba,
brincando com as ideias
dos homens, poisando nas costas
duma cadeira, num poema
de Alberto Caeiro
que era Fernando Pessoa
não-ele-mesmo.
Também eu faço poemas – se,  
em vez de dizer as coisas por extenso,
me fizer – ficar em verso.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

EFEITO PINÓQUIO


Pensar que se vai escrever é quase um suicídio da escrita, já que ela é uma entidade viva, pronta a respirar pelos poros da pele, onde ela não tem pelo. Ao assimilar o lado físico da escrita, encontro o mote para este texto cujo pretexto se prende com o "efeito Pinóquio".
Recebi um email alertando para ele, dele fazendo eco. Estou pois a ler as implicações do dito cujo efeito, o qual tem por base as reacções do nariz à verdade, melhor dizer, à sua ausência.
Deixo por e para leitura, uma hiperligação.
Como sabemos ser o efémero mais que mero risco, aqui deixo o texto.
A escrita, para não ser um suicídio, é a verdade dum acto, surge, urge, como – o próprio – Acto: vive o seu tear, urdindo: teatro!
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23/11/2012 | 11:50 | Dinheiro Vivo
Um estudo realizado pela Universidade de Granada, em Espanha, revelou que o nariz muda de temperatura de cada vez que se mente, segundo o El Mundo, citado pelo Diário de Notícias. A temperatura varia consoante o tipo de mentira que é dita.
Segundo os cientistas Emilio Gómez Milán e Elvira Salazar López, do departamento de Psicologia Experimental da universidade espanhola, a temperatura do nariz desce quando a mentira envolve um grande esforço mental e aumenta de cada vez que faz aumentar os níveis de ansiedade da pessoa.
A investigação do chamado 'Efeito Pinóquio' faz parte de uma tese de doutoramento realizado na Universidade de Granada e, segundo o El Mundo, foi já publicada em revistas científicas.
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quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Kalei...



NESTE DIA

no dia dos teus anos
quisera ter a atenção
bem posta nesse dia

deixei-a chegar
agora mesmo

já não perdi tempo!
Assim

DIA DESTE

também quero
a frescura das fontes
assim que jorram

frescas à sede
tão fresca

fruto do momento(!)
Mim

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

NENHUM LADO

23. NENHUM LADO

Por fim, recomeçamos. Antes de mais, não me ocorre nada. Começo por aqui, a meio de nenhures. Como se, tendo avançado pouco, não fosse a mais nenhum lado.
Chegada, descobrindo por baixo o que está por cima, remexo. Encho o peito de ar: a inspiração. De todos os lados procuro o final, um ponto de encontro entre o dentro e o fora, na flora da escrita aqui descrita – em nenhum lado – em especial.
38)


acroatico
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Assim & Mim

terça-feira, 20 de novembro de 2012

DIVINA PROVIDÊNCIA

22. DIVINA PROVIDÊNCIA

A melhor coisa a fazer, deixar alguém querer conhecer quem somos. Ficar tão perto dos gomos, dentro deles, ser sumo. A fruta escolhida não pode ser banana, tem de ser citrino (o artista, a artista tem de ser um cretino, uma cretina ou clementina: laranja e tangerina, qualquer coisa compósita, de propósito). Evitemos ser um limão ácido, providenciemos… Divina Providência!
37) 

Hiperligações 

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

EXAGERO E EXACERBAÇÃO

21. EXAGERO E EXACERBAÇÃO

Imagino-me a ser uma mulher delicada, cinzelada pela pluma dum escrito, sentindo derramar-se em alma exageros e exacerbações do seu íntimo romântico. É nesta altura que me apetece ir bater bifes, espremer limão e temperar com alho.
36)

Acerca de mim
O poeta é um universo livro
Hiperligações 
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sábado, 17 de novembro de 2012

MINHAS IDEIAS

20. MINHAS IDEIAS 
As minhas ideias, chegam-me e partem, não me chegam. Estou sempre a pensar mais, e, pior… não paro de pensar. Sou ruminante de palavras, das quais nunca chego a fazer uma digestão que me chegue. Todos os dias, preciso de mais, e mais.
35)

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

PAPAGAIO (S/EM PAPEL)

19. PAPAGAIO (S/EM PAPEL)

(Pa) Gosto de imaginar um mini romance em três frases que pense(i). (Pa) Na primeira solto a ideia, levando consigo este cordel solto, em letras. (Gaio) Por fim, fico a olhar o papagaio de papel, até já não ser visível.
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marcantoniosc
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domingo, 11 de novembro de 2012

METAFÍSICA

18. METAFÍSICA
Começo o dia a jogar ao gato e ao rato com as ideias. Faço de gato, as ideias estão todas escondidas. Só que… deixá-las estar, não me apetece brincar mais. Prefiro este jogo menos físico, quase Metafísico, fico metafísica: brincando com as palavras, sem ideias…
60)


sábado, 10 de novembro de 2012

HISTÓRIA DA MINHA VIDA


17. HISTÓRIA DA MINHA VIDA

Tenho na minha vida coisas que gostaria de fazer, mas não sei se existem. Dito isto, esta é mais uma história da minha vida.
59)

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sexta-feira, 9 de novembro de 2012

TOTAL LIBERDADE


Vou começar um conto, com três recomendações que fico a dever.
«Recomendações:
1 -não tire os sapatos, o Bicho vai pegar no pé. 


2 -a casa é grande e é de todos, mas deve permanecer limpa. 



3 -não ofereça veneno ao Bicho, ele pode gostar.» Tatiana.

Espero dê para perceber… qualquer coisa. Estou sem disposição para escrever, dá para escrever para mim. Não sou nada exigente com os meus humores, a total liberdade de expressão.
O conto foi isso?
Pergunta pertinente!
Obituário: sem quê nem porquê, aconteceu deste modo, já não muda, o olho de vidro do coxo caiu, pareceu um berlinde e desapareceu num bueiro.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

O MORTO SOLITÁRIO


Tinha tudo para poder ter um nome, uma morada, alguém onde viver. Era, contudo, um solitário. Prescindira de tudo e, quando morreu, ninguém soube quem ele era. A bem dizer, nem sabiam onde estavam quando o encontraram. Iam a caminho do fim dum conto curto, curtiram? Não se sabe ao certo, o esqueleto esquisito era inquietante. Ainda para mais… estava quieto. Chamei-lhe, sem muita convicção "o morto solitário". Foi tudo.
58)

Acerca de mim
"Consta que as violetas e seus roxos requerem pouca água. É que a sua sede se faz de imaginários matizes e terrosos aromas. Nesse pêndulo, suas raízes." (De Marcantonio, do blog Diário Extrovertido, para o Roxo-violeta)
Hiperligações 
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domingo, 28 de outubro de 2012

DANÇA DO FOGO


16. DANÇA DO FOGO


A imortalidade só tem interesse com o pressuposto de sempre podermos reiniciar. É um filme que se repete, ininterruptamente. As palavras, nesta narrativa, procuram ser a legenda desse filme. Vai ficar mudo, para a mudança ser, a dança do fogo.
55)


declamadorpoesia
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sábado, 27 de outubro de 2012

O CORAÇÃO NAS MÃOS

Bom dia!
Porque hoje é Sábado, vamos lá… um pouco de tudo. Com o coração nas mãos, deixemos a emoção tomar conta das palavras. A escrita é um pouco isto, uma creche: o corpo a tomar conta das vísceras, as vísceras a fazerem funcionar o corpo.
Hoje tenho de corrigir uma turma de testes, tenho de ser eu. Virei falar desse assunto? Para ficarem a(com)panhados/as deixo um texto que já anexo, depois da Mina.

15. CULTIVO DAS LETRAS

À falta dum culto suficientemente exotérico para dar aos sonhos a promessa dum sono do outro mundo, cultivo as letras. Uso as maiúsculas depois dos pontos finais, aqueles onde continuo em frente e o primeiro.
Mina
56)


Acerca de mim
Taninha Nascimento - Professora - Graduada em Letras - Português/Literatura. Poetisa.
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O texto que está a incendiar Espanha

O seguinte texto foi publicado recentemente no El País, tendo-se tornado absolutamente viral em Espanha. Reflecte sobre o terrorismo financeiro e a captura económica. Chama as coisas pelos seus nomes e faz uma análise sobre o capitalismo actual que está a incendiar não só Espanha como todo o mundo. O título é "Um canhão pelo cú", e é escrito por Juan José Millas. 
Um canhão pelo cú
Se percebemos bem - e não é fácil, porque somos um bocado tontos -, a economia financeira é a economia real do senhor feudal sobre o servo, do amo sobre o escravo, da metrópole sobre a colónia, do capitalista manchesteriano sobre o trabalhador explorado. A economia financeira é o inimigo da classe da economia real, com a qual brinca como um porco ocidental com corpo de criança num bordel asiático.
Esse porco filho da puta pode, por exemplo, fazer com que a tua produção de trigo se valorize ou desvalorize dois anos antes de sequer ser semeada. Na verdade, pode comprar-te, sem que tu saibas da operação, uma colheita inexistente e vendê-la a um terceiro, que a venderá a um quarto e este a um quinto, e pode conseguir, de acordo com os seus interesses, que durante esse processo delirante o preço desse trigo quimérico dispare ou se afunde sem que tu ganhes mais caso suba, apesar de te deixar na merda se descer.
Se o preço baixar demasiado, talvez não te compense semear, mas ficarás endividado sem ter o que comer ou beber para o resto da tua vida e podes até ser preso ou condenado à forca por isso, dependendo da região geográfica em que estejas - e não há nenhuma segura. É disso que trata a economia financeira.
Para exemplificar, estamos a falar da colheita de um indivíduo, mas o que o porco filho da puta compra geralmente é um país inteiro e ao preço da chuva, um país com todos os cidadãos dentro, digamos que com gente real que se levanta realmente às seis da manhã e se deita à meia-noite. Um país que, da perspetiva do terrorista financeiro, não é mais do que um jogo de tabuleiro no qual um conjunto de bonecos Playmobil andam de um lado para o outro como se movem os peões no Jogo da Glória.
A primeira operação do terrorista financeiro sobre a sua vítima é a do terrorista convencional: o tiro na nuca. Ou seja, retira-lhe todo o caráter de pessoa, coisifica-a. Uma vez convertida em coisa, pouco importa se tem filhos ou pais, se acordou com febre, se está a divorciar-se ou se não dormiu porque está a preparar-se para uma competição. Nada disso conta para a economia financeira ou para o terrorista económico que acaba de pôr o dedo sobre o mapa, sobre um país - este, por acaso -, e diz "compro" ou "vendo" com a impunidade com que se joga Monopólio e se compra ou vende propriedades imobiliárias a fingir.
Quando o terrorista financeiro compra ou vende, converte em irreal o trabalho genuíno dos milhares ou milhões de pessoas que antes de irem trabalhar deixaram na creche pública - onde estas ainda existem - os filhos, também eles produto de consumo desse exército de cabrões protegidos pelos governos de meio mundo mas sobreprotegidos, desde logo, por essa coisa a que chamamos Europa ou União Europeia ou, mais simplesmente, Alemanha, para cujos cofres estão a ser desviados neste preciso momento, enquanto lê estas linhas, milhares de milhões de euros que estavam nos nossos cofres.
E não são desviados num movimento racional, justo ou legítimo, são-no num movimento especulativo promovido por Merkel com a cumplicidade de todos os governos da chamada zona euro.
Tu e eu, com a nossa febre, os nossos filhos sem creche ou sem trabalho, o nosso pai doente e sem ajudas, com os nossos sofrimentos morais ou as nossas alegrias sentimentais, tu e eu já fomos coisificados por Draghi, por Lagarde, por Merkel, já não temos as qualidades humanas que nos tornam dignos da empatia dos nossos semelhantes. Somos simples mercadoria que pode ser expulsa do lar de idosos, do hospital, da escola pública, tornámo-nos algo desprezível, como esse pobre tipo a quem o terrorista, por antonomásia, está prestes a dar um tiro na nuca em nome de Deus ou da pátria.
A ti e a mim, estão a pôr nos carris do comboio uma bomba diária chamada prémio de risco, por exemplo, ou juros a sete anos, em nome da economia financeira. Avançamos com ruturas diárias, massacres diários, e há autores materiais desses atentados e responsáveis intelectuais dessas ações terroristas que passam impunes entre outras razões porque os terroristas vão a eleições e até ganham, e porque há atrás deles importantes grupos mediáticos que legitimam os movimentos especulativos de que somos vítimas.
A economia financeira, se começamos a perceber, significa que quem te comprou aquela colheita inexistente era um cabrão com os documentos certos. Terias tu liberdade para não vender? De forma alguma. Tê-la-ia comprado ao teu vizinho ou ao vizinho deste. A atividade principal da economia financeira consiste em alterar o preço das coisas, crime proibido quando acontece em pequena escala, mas encorajado pelas autoridades quando os valores são tamanhos que transbordam dos gráficos.
Aqui se modifica o preço das nossas vidas todos os dias sem que ninguém resolva o problema, ou mais, enviando as autoridades para cima de quem tenta fazê-lo. E, por Deus, as autoridades empenham-se a fundo para proteger esse filho da puta que te vendeu, recorrendo a um esquema legalmente permitido, um produto financeiro, ou seja, um objeto irreal no qual tu investiste, na melhor das hipóteses, toda a poupança real da tua vida. Vendeu fumaça, o grande porco, apoiado pelas leis do Estado que são as leis da economia financeira, já que estão ao seu serviço.
Na economia real, para que uma alface nasça, há que semeá-la e cuidar dela e dar-lhe o tempo necessário para se desenvolver. Depois, há que a colher, claro, e embalar e distribuir e faturar a 30, 60 ou 90 dias. Uma quantidade imensa de tempo e de energia para obter uns cêntimos que terás de dividir com o Estado, através dos impostos, para pagar os serviços comuns que agora nos são retirados porque a economia financeira tropeçou e há que tirá-la do buraco. A economia financeira não se contenta com a mais-valia do capitalismo clássico, precisa também do nosso sangue e está nele, por isso brinca com a nossa saúde pública e com a nossa educação e com a nossa justiça da mesma forma que um terrorista doentio, passo a redundância, brinca enfiando o cano da sua pistola no rabo do sequestrado.
Há já quatro anos que nos metem esse cano pelo rabo. E com a cumplicidade dos nossos.
Juan José Millas
notícia dinheiro vivo

 Juan José Millás (Valência, 1946), cedo muda para Madrid onde passará a maior parte da sua vida. Frequentou o curso de Filosofia e Letras, que veio a abandonar, desiludido com as limitações franquistas, dedicando-se a uma carreira administrativa que lhe proporcionasse tempo para escrever. É autor de romances como A Desordem do teu NomeAssim Era a SolidãoDuas Mulheres em Praga e Laura e Júlio, entre outras, que o consagraram como um dos grandes escritores da actualidade. Desde as suas primeiras publicações, foi reconhecido pelo público e pela crítica, destacando-se os prémios Sésamo, Nadal e Primavera. A sua obra narrativa está traduzida em vinte e três línguas. É já na maturidade que Juan José Millás se dedica ao jornalismo. Cronista regular do diário El País, autor de reportagens e artigos em vários jornais, a sua prosa jornalística, várias vezes premiada, criou tantos apaixonados como a sua literatura. Numa escrita sempre psicanalítica e profunda, mas também viva na criação de ambientes, o autor criou uma obra ímpar, galardoada com o Prémio Planeta 2007 e o Prémio Nacional da Narrativa 2008.