1 – Diálogo com uma possibilidade
A prosa, a poesia, de certo modo tudo o que é escrito, ou pode ser, por
tanto, escrita, é uma tentativa ou a possibilidade de tentar reproduzir a
comunicação. Tal com ela existe, tal como a conhecemos, coisas que queremos
dizer, coisas que entendemos, coisas que podem ser em diferido, ou seja, eu
escrevo para poder ser lido ou para poder ler o que escrevi. Acontece que,
sempre que se escreve em função desta reprodução que há da realidade, damos
conta que há alguém que escreveu, e esse alguém que escreveu por vezes
apercebemos que não faz sentido nenhum sermos nós, porque nós estamos a
escrever uma possibilidade de dizer coisas, coisas que dizemos para ouvir essa
possibilidade e por tanto pôr em cena, criar um cenário, de algo que é um
diálogo com uma possibilidade.
2 – O que é
O que é que
acontece quando tentamos aprofundar essa possibilidade? Bom, podemos dizer que
somos nós. Vamos perpetrar desenvolver a actividade de nos identificarmos com o
que estamos a escrever, com o que estamos a pensar no momento em que
escrevemos. E pronto! Não fazemos mais do que isto, que é tentar assumir um
personagem, a pessoa que aparece aos nossos próprios olhos e de quem queira ler
o que estamos a escrever, como sendo alguém que se realiza através daquilo que
está a pôr por escrito quem escreve. Só que, quando isso acontece, eu sinto-me
um proscrito. Alguém que, de certa maneira, se afastou de si próprio. Porque eu
quereria pôr-me como um espectador daquilo que escrevo, então é a tal situação
de como é que eu consigo ser o personagem que estou a criar, não querendo ser
esse mesmo personagem.
3 – Como é
Como é que
crio um “outro” que não eu? E (a)parece-me que o processo é sempre o mesmo,
porque vou ter que descobrir a realidade que se cria com a escrita, lendo a
realidade que outros já criaram e eu posso entender ou tentar entender ou
entender sempre de alguma maneira, mesmo que seja uma maneira desentendida de
entender os factos, que é: não percebo como é que os outros fazem personagens e
nem como, nem o porquê e para quê. Ao fim, ao cabo, é assim, se eu entendesse,
não estava para aqui a perder-me nestas cogitações. Ao ponto de… Fazia o que
queria e o que acontece seria, passar para o outro. Passar para o dito cujo
personagem, o tal processo onde me sinto preso. Um proscrito, ao estar afastado
dos outros, está afastado do convívio. Como vou conviver com esta situação de
desenvolver uma reflexão no vazio?
4 – Quem é
Se me levasse
a algum lado, levar-me-ia a entender quem é que está na minha presença quando
escrevo a presença de alguém. Sendo que, esse alguém, não entendo seja eu e
também não entendo que não possa ser, que não seja. Ou seja, não entendo de que
maneira é que eu posso deixar de ser eu. Vamos aos factos, os factos são estes:
Quando nos lemos é diferente daquilo que escrevem as outras pessoas, as
outras pessoas escrevem como sendo elas, assinam, fazem reflexões, tomam notas,
criam seus próprios diários onde anotam leituras, as mais variadas possíveis,
por aí vai...
São as suas cartas para este ou para aquele, por causa disto ou por causa
daquilo, são felizes com certeza, porque estão a escrever aquilo que lhes vem a
cabeça com a perspectiva de tudo que possam querer.
5 – O que acontece
O que acontece quando projectam um outro personagem? Dão-lhe um nome,
contam uma história onde seja essa pessoa a mover-se. Dessa maneira, penso eu,
criam novos universos, movem-se noutras esferas, duplicam-se, multiplicam-se,
recriam-se, criam novas realidades e pronto, é aqui que estou. Será que estou a
criar uma nova realidade? Com certeza que não, estou é a problematizar a
realidade tal como ela se impõe. Saber se dando um nome novo a esta pessoa que
escreve, supostamente projectada de mim ou sem suposição nenhuma... Isto não
passa de uma tentativa, a tentativa de conseguir criar um personagem. Só que, é
um personagem que tem um interesse tão relativo como dar importância a este
facto e conseguir consubstanciá-lo. Então seria uma história, e este personagem
estaria a debater-se com este ponto de partida de se afirmar como tendo, por
exemplo, autonomia e depois teria que ter interesse este debate que ele tem
consigo próprio e por tanto chegaria a um final.
6 – Um final
Ao haver um final há um trânsito, um evoluir e depois, o final encerra a
história ou deixa-a em aberto. Como é que se pode encerrar uma história destas,
dar uma conclusão a este tipo de preocupação ou ocupação em discernir o que é
isto de criar um personagem? Como não consigo ficar feliz com nenhuma solução
para o problema, o problema existe. Existe de que maneira? Em que medida?
Existe desta maneira, se agora desse um nome à presença deste texto, uma
assinatura e teria criado um António, um Belmiro, um Caetano, um Delmino, uma
coisa qualquer que pudesse seguir as letras do abecedário, quando chegasse ao Z,
dava um salto no espaço e caía de pé sem assentar em nenhum ponto especial,
visto que já tinha esgotado as letras todas e por tanto, tinha que criar um
abecedário novo, desenhar uma letra qualquer que fosse um símbolo ainda
desconhecido. Entrava em órbita, fazia o pino, era muito feliz… se por acaso
estivesse muito bem-disposto com aquilo que tinha acabado de fazer. O que
acontece é que nunca se chega a um fim numa situação destas que passou a ser um
pouco um problema vital, um problema de vida, se assim quisermos, e que vida é
essa? É a vida da escrita.
Vida da escrita à qual só de uma forma muito limitada consigo dar corpo, na
medida em que coisas como estas que eu estou a viver neste momento, são ideias
de paquiderme, uma coisa gigantesca que só tem lugar para mim nos livros.
Livros que não sou capaz de escrever, porque não tenho paciência para isto que
estou a fazer neste momento.
7 - Um desafio
Um desafio este de ir pondo palavras no papel, enchendo folhas, folhas, folhas, para ver quem é que tem paciência para ler um texto tão comprido. Porque eu, eu talvez até fosse capaz de o fazer se o texto me fosse mandado por alguém que eu tenha em consideração e no fim tivesse vontade de dizer: Ora sim senhor/a, consegui ler até ao fim e devo-te dizer que não achei que fosse um tempo perdido, porque acho que… porque sim, porque disse, porque deixa, encontrei coisas com interesse como a persistência num tema onde parece que não encontras solução para o mesmo e realmente a solução para a vida continua ainda a ser a Morte e olha, sempre que escrevas textos como este podes mandar, porque acho piada. Agora vamos ver onde é que pia a piada, frases como esta e como aquela… são sempre interessantes e pronto, lá tinha eu que estar a ler o que escrevi, coisa que provavelmente não irei fazer, mas como pode haver sempre o tal amigo que receba aquilo que eu estou a escrever e que tenha paciência de ler, quanto mais não seja para descobrir a tal frase interessante, ou frases ou a persistência de um problema que se vai resolvendo porque, enquanto à vida sabe-se que há-de haver um final e é isso! Se vocês estão aqui e aqui chegaram sem dar grandes saltos de cavalo, é porque ainda devem estar à procura de saber com é que isto acaba. Bom, olha, acaba de morte natural, cansaço, as células todas a estrebucharem, as letras que já não querem sair e pronto, é um ponto final parágrafo.
Um final, nunca é o final.
7 - Um desafio
Um desafio este de ir pondo palavras no papel, enchendo folhas, folhas, folhas, para ver quem é que tem paciência para ler um texto tão comprido. Porque eu, eu talvez até fosse capaz de o fazer se o texto me fosse mandado por alguém que eu tenha em consideração e no fim tivesse vontade de dizer: Ora sim senhor/a, consegui ler até ao fim e devo-te dizer que não achei que fosse um tempo perdido, porque acho que… porque sim, porque disse, porque deixa, encontrei coisas com interesse como a persistência num tema onde parece que não encontras solução para o mesmo e realmente a solução para a vida continua ainda a ser a Morte e olha, sempre que escrevas textos como este podes mandar, porque acho piada. Agora vamos ver onde é que pia a piada, frases como esta e como aquela… são sempre interessantes e pronto, lá tinha eu que estar a ler o que escrevi, coisa que provavelmente não irei fazer, mas como pode haver sempre o tal amigo que receba aquilo que eu estou a escrever e que tenha paciência de ler, quanto mais não seja para descobrir a tal frase interessante, ou frases ou a persistência de um problema que se vai resolvendo porque, enquanto à vida sabe-se que há-de haver um final e é isso! Se vocês estão aqui e aqui chegaram sem dar grandes saltos de cavalo, é porque ainda devem estar à procura de saber com é que isto acaba. Bom, olha, acaba de morte natural, cansaço, as células todas a estrebucharem, as letras que já não querem sair e pronto, é um ponto final parágrafo.
Um final, nunca é o final.








