quinta-feira, 7 de abril de 2011

PARAMÉCIA

Fui procurar o email, o registo de uma das tuas “paramécias”. Nunca me dei ao trabalho de lhe responder, seria um trabalho e não seria uma resposta. Em substituição, um conto, um pouco desmedido e caótico. Lembro-me que andaste uma semana a escrever o dito email, assim será o meu, o resultado de uma semana de deambulações em torno das palavras.
Como não tenho uma história, tu cozeste histórias sobre histórias, tendo por linha, a imaginação do sentir. As sensações também andam por aqui a boiar, prefiro usar bóias. Serão contos, separados por conta de títulos? Desagrada-me a ideia de incluir títulos no texto, quando for o caso, faço uma nota (1).
Isto não passa de Lixo, lixo num sentido etimológico que desconheço. Fico com étimo+lógico, o nome mais lógico. Seria justo cada autor ter uma etimologia própria, cá estou a escrever uma paramécia. Será como quem fez uma promessa e agora a está a pagar, andando devagar, de vagar, sobre a ponta dos dedos, sobre um teclado.
O teclado é virtual, encontra-se desenhado de forma informática sob o ecrã. Sobre a pressão muito ligeira de cada dedo, um de uma mão, um ou dois de outra, vou escrevendo. Tu não estás vendo, usas uma venda e estamos a jogar à Cabra Cega. Quando chegar ao fim da página, minha cabra, já ganhei direito a gozar-te todinha.
Vamos começar por examinar o sinal na barriga à luz de muitos beijinhos, aplicando os lábios como instrumento de análise. A Língua ainda ela, aqui continuamos a saborear. Tem sabor de framboesas, os frutos do bosque mergulhados em iogurte cremoso, saboroso, líquido. Devemos ir bebendo a imaginação, cada imagem liquefazendo uma palavra ou frase inteira.
Por mim já estávamos no sinal e inventávamos um novo sinal, um Stop ao contrário: não parar! Com tantos sinais repetidos: virgulas, pontos, dois pontos… estou no pára arranca de escrever sem pressa, como quem emula uma conversa feita em monólogo com o enólogo do lado guardado numa garrafa de tinto donde vou servindo “Um vinho frutado…”
Com vinho a comida sabe sempre melhor, na escrita passa-se o mesmo, a descrição tem acompanhamento. Vou acampar, montar a tenda, armar barraca, dizer o que importa e o que se exporta sem importância. Até voltar à importação, tentando receber qualquer ideia que se perceba e seja uma espécie de sobremesa. Só nessa altura será servido o iogurte, enquanto isso não acontece, continuamos a pagar promessa.
De que cor era o cavalo Branco do Napoleão, branco é galinha o pôs, um ovo, se voo. Não falha, depois duma falha, a falha passa. Só fica permanente e permanece quando chegar ao fim da folha, estamos muito perto, entrámos na zona do aperto, anota a nota, um conto desgarrado, flutuante… adiante: a) diante do abismo o artista cisma, concentra-se… mergulhar.
(1)
Faltam quinze linhas que acabei de contar uma, outra, outra, até perfazer as quinze. Quantas serão as linhas do conto? Vou contar, depois subtraio ou acrescento ou deixo ficar o que crescer, o cogumelo atómico dum átomo fissurado contaminando quem conta minando o peyote (eu alucino o génio: PEIDO)
A ideia surgiu-me como um enorme peido mal cheiroso, depois dela, ainda durante a mesma, fechei os olhos enquanto ela se vinha e eu lhe dava o iogurte na boca pelo gargalo da garrafa entornando o tinto sobre o branco, escrevendo a vermelho. Fiquei com os olhos raiados, os cabelos em pé! Por um momento o mundo todo tremeu e três meus eus foram separados dum quarto, o que me leva a reagrupá-los agora: 1 – o eu que julgo que sou, 2 – o eu que julgam que sou, 3 – o eu que julgo julgam que sou, 4 – o eu que realmente sou. Realmente sou este quarto, às vezes com esta ideia ficamos abalados até às suas bases. Inescapável não sentir a ideia, não a aspirar, é a inspiração fedorenta e desagradável a impor-se ao bom senso e bom gosto. Impossível dizer que não gosto, a escatologia tem uma lógica própria, insofismável: a verdade e nada mais que a verdade, o vermelho da cor vermelha, o verdadeiro sangue da vida, é para guardar de cor!
escatologia
(grego éskhatos, -ê, -on, último + -logia)
s. f.
Teoria acerca das coisas que hão-de! suceder depois do fim do mundo; teoria sobre o fim do mundo e da humanidade.

2 comentários:

  1. Olá, meu querido amigo Fran!
    Este texto é forte:)
    Foges do teu pendor referencial.
    Não sei quem é a fonte inspiradora, porém não te deu aquela mágica de génio na escrita.
    «Isto não passa de Lixo, lixo num sentido etimológico que desconheço. Fico com étimo+lógico, o nome mais lógico. Seria justo cada autor ter uma etimologia própria, cá estou a escrever uma paramécia. Será como quem fez uma promessa e agora a está a pagar, andando devagar, de vagar, sobre a ponta dos dedos, sobre um teclado.
    O teclado é virtual, encontra-se desenhado de forma informática sob o ecrã.»
    É uma crise temporária?...:)
    Adoro o que escreves, sabes bem que sim e quanto sou sincera.Neste texto há algo não do Francisco, nem do Assim e muito menos da Mim.
    Tu és poeta maior.Não esqueças!
    Bjito amigo e bom fim de semana.

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  2. Querida Tecas,
    Hoje, dei a data valor do dia que já vai sendo ontem, escrevi para ti. Quem imaginará haver uma "causa próxima", aqui tão próxima :)
    Muito grato pelos teus comentários! Beijos

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